O Rappa em Boston dia 2 de julho
Marcelo Lobato, baterista da banda, fala em entrevista ao Brazilian Times
Eduardo Zobaran
O som da banda carioca O Rappa é um tanto quanto difícil de ser definido. Alguns diriam que é rock, enquanto outros arriscam que é reggae. Ninguém duvida, no entanto, que o samba e o funk do Rio de Janeiro também sejam influências nas melodias e composições. De qualquer maneira, independente do gênero musical, O Rappa – que está completando treze anos e vêm pela terceira vez aos EUA – é um dos poucos grupos da nova geração que conquistou um grande público sem abrir concessões nas batidas ou nas palavras. No próximo domingo, 2 de julho, a banda se apresenta no Club Lido, em Revere, Massachusetts, como parte da turnê com nove apresentações nos Estados Unidos. Antes de deixar o Brasil, o baterista Marcelo Lobato falou sobre os treze anos “de estrada” e as conquistas do grupo. Com uma conversa agradável e um discurso consciente e coerente, Lobato não se esquiva de assuntos como imigração, governo Lula ou problemas sociais do Brasil e do mundo.
Brazilian Times – Qual é a formação do O Rappa para a turnê nos Estados Unidos?
Marcelo Lobato - Nós subiremos ao palco como quarteto fantástico. É com essa formação que nos apresentamos no Brasil. Além do Falcão, nos vocais, tem ainda o guitarrista Xandão e o baixista Lauro Farias (Lobato é o baterista). Optamos por fazer os shows assim e tem sido muito bom, porque nos lembra muito o início da nossa carreira. Como somos apenas quatro, sem músicos convidados para acompanhar a banda, a apresentação se torna mais visceral. Os nossos “Cd´s” costumam ser recheados de informação. Nós damos muito valor para a produção e o resultado só dá para descubrir quando já está mixado. Em compensação esse tipo de apresentação com poucas pessoas é uma experiência diferente. Cada show é diferente do outro e nós acabamos por adquirir um intimidade musical muito forte.
BT – O Rappa tem uma preocupação social muito forte e essas idéias refletem nas músicas e letras. Será que o público de brasileiros que não vive mais no Brasil consegue assimilar essas idéias?
Lobato – Acredito que funcione em qualquer parte do mundo, independente se a pessoa é brasileira e mora fora do país ou, até mesmo, se é um estrangeiro. A música tem o poder de transportar as realidades. Nos Estados Unidos, existem muitas pessoas que nos acompanharam no início da nossa carreira e ainda vão aos nossos shows. Alguns continuam acompanhando nosso trabalho, mas para outros o show acaba sendo uma novidade.
BT – Como é a experiência de tocar para brasileiros fora do Brasil?
Lobato – É muito bom. Nós sabemos que muitas vezes um evento como esse é um alento para pessoa que está morando fora, em busca de oportunidades, como estudo e trabalho que, infelizmente, o nosso país não oferece. Muitas bandas têm preconceito de tocar para brasileiros no exterior, mas nós sempre tivemos ótimas experiências. Eu ainda lembro do show que fizemos em Boston, o público estava realmente participando do show, foi sensacional.
BT – O Brasil vive, no momento, a euforia da Copa do Mundo. Muitas pessoas temem que esse período acabe cegando os brasileiros para os problemas do país. Você concorda com essa teoria?
Lobato – Realmente, muita coisa ruim pode ser ofuscada. O presidente, os deputados, os senadores, enfim...toda a classe política está deixando a desejar. Mas não é em função das “cagadas” do jogo político que nós temos que deixar de comemorar. Até porque, a maoiria dos jogadores vieram lá de baixo, das camadas com menos dinheiro. Eram pessoas que jogavam na rua, descalços e, hoje, são os maiores, mesmo que outros países ofereçam condições muito melhores para suas crianças aprederem a jogar.
BT – Qual é a sua posição com relação à política externa dos Estados Unidos?
Lobato – Acho que vem sendo conduzida de forma equivocada. Uma guerra nunca é legal, porque sempre quem mais vai sofrer é a população. Existem outras formas de combate que não à guerra. Infelizmente, não é de hoje que os Estados Unidos mantêm essa política. Antes foi a Coréia, o Vietnã e tantos outros e, hoje, é o Afeganistão, o Iraque.
Nós já estivemos fazendo show em vários lugares e, nos EUA, sempre teve uma super vigilância, ainda mais conosco que estamos sempre levando instrumentos e a polícia imagina que nós possamos estar guardando algo lá dentro. A vida piorou para o americano. Essa tensão no ar é desgastante, mas não é desculpa para guerras. Ainda assim, não acredito que o Bush represente o desejo de todo o povo americano. Ao menos, o Brasil não entrou nessa guerra. A política externa é um dos poucos pontos fortes do atual governo brasileiro.
BT – O que mudou na sociedade desde 11 de setembro?
Lobato – Eu lembro que estava viajando com minha mulher pelo Sul da França quando aconteceu o ataque às torres gêmeas. Lá, a cultura árabe é muito forte, muito muçulmanos moram na França. Depois do ataque, acredito que a tendência é de que cada grupo se isola-se, criando um afastamento entre diferentes culturas e crenças.
Sou carioca e vejo que o mesmo processo acontece no Rio. Em momentos de crise, a solidariedade deveria imperar, mas o que aconçe é justamento o contrário. As pessoas acabam caindo em um individualismo, porque cada um quer “garantir o seu”. Isto só cria ainda mais tensão entre as diferentes camadas da sociedade.
BT – O Rappa se caracteriza por seu discurso político e, em virtude do sucesso, sua voz sempre é ouvida nos momentos de crise. Como lidar com essa responsabilidade?
Lobato – Nós nunca buscamos um discurso político. A nossa prioridade sempre foi o lado musical. O que acontece é que as músicas que tem a nossa cara são, em geral, crônicas do cotidiano. Com isso, O Rappa se aproxima dos problemas raciais, econômicos e sociais do Rio e do Brasil. O discurso é uma conseqüência disso, porque qualquer troca de idéia é política. “Fazer política” não é só votar. Nós falamos muito de amor, não daquela forma de “meu amorzinho”. Falamos do amor que está na vida, nas pessoas, e até o amor é político.
BT – Qual é o segredo do sucesso de O Rappa?
Lobato - A nossa banda é multi-cultural e que acredita no sincretismo. Têm pessoas dos mais diferentes lugares do Rio, temos um até nordestino no grupo. Acreditamos na mistura. Atualmente, posso dizer que o alcance da nossa música é maior por isso. Crianças, jovens, adultos e idosos se identificam com o nosso som e nos respeitam. Outro fator é que as nossas letras não são datadas, fazendo com que alguém possa ouvir nossas músicas tanto hoje como daqui a 10 anos e não fará muita diferença. Até porque os problemas retratados estão ainda longe se serem resolvidos.
BT – Mesmo evitando o rótulo de “banda com discurso” ou “banda engajada”, qual recado O Rappa tenta transmitir para os fãs?
Lobato – Durante estes treze anos, nós amadurecemos e percebemos que não adianta apenas falar, precisamos de atitudes. Quem curte nosso som tem que deixar de ser apenas fã e entender o nosso jeito de pensar. Não é só comprar camiseta ou Cd’s, tem que participar. Hoje, isso já acontece. Nossos fã-clubes abraçam campanhas sociais. É como se O Rappa não pertencesse mais a nós mesmo. Essa é a maior recompensa.
Frases que podem ser usadas na leganda ou caixas
Muitas bandas têm preconceito de tocar para brasileiros no exterior, mas nós sempre tivemos ótimas experiências
Infelizmente, não é de hoje que os Estados Unidos mantém essa política
Em momentos de crise, a solidariedade deveria imperar, mas o que acontece é justamento o contrário
nunca buscamos um discurso político
É como se O Rappa não pertencesse mais a nós mesmo. |